
Fim do inverno no cerrado. Por Thauana Pessoa
O tempo no Cerrado está mudando. E não foi sutil nessa última semana. Tenho percebido uma intensificação da seca. O capim está cada dia mais cinza, muitas árvores estão perdendo as folhas e vejo sementes aladas por toda parte. A poeira também aumentou muito: está no ar, nos móveis e até no cabelo.
Em contraste, as noites são bonitas, com muitas estrelas visíveis no céu.
A seca também tem sua beleza na Chapada dos Veadeiros. As águas ficam límpidas e menos frias, e essa é uma das melhores épocas para os banhos de rio. Em meio ao capim seco, várias plantas florescem: a justícia-de-pelos-dourados (Justicia chrysothricoma), a caliandra-vermelha (Calliandra dysantha) e a capuchinha-do-cerrado (Macairea radula).
Desde que cheguei, costumo colocar bananas para os passarinhos. No início vinham muitos sabiás, sanhaços e pássaros-pretos. Agora aparecem muitos tico-ticos e sabiás-do-campo, que acabei de conhecer.
O fim do inverno no Cerrado costuma ser quente e seco, e essas qualidades vão se intensificando até a primavera, quando chegam as tão esperadas chuvas. Ao mesmo tempo, sentimos mais cheiro de fumaça no ar e aumenta a preocupação com os incêndios.
Acredito que esse seja o limiar entre o inverno e a primavera: um período de intensidade e instabilidade em que tudo parece mais árido e desconfortável. Ansiamos pela chuva, por um pouco de frescor e renovação. Mas não sabemos ao certo quando ela chegará.
E esse “entre” não será igual ao que vivi no ano passado. Estou em outro lugar, meu corpo mudou, minha mente também. São muitas coisas coemergindo ao mesmo tempo.
Podemos observar padrões, acompanhar previsões, reconhecer alguns sinais. Tudo isso nos dá algum direcionamento, mas não nos permite saber exatamente o que virá.
Enquanto observo esse limiar do lado de fora, percebo que passo por um no meu próprio corpo.
Há alguns meses, comecei a perceber sensações intensas que nunca havia experimentado antes. Meus batimentos cardíacos aceleravam mesmo quando eu estava em repouso. Em alguns momentos sentia ansiedade, mais irritabilidade e a sensação de que alguma coisa estava diferente.
Eu estava passando por muitas mudanças e poderia atribuir tudo a elas. Mas, por conhecer bem meus ciclos, percebi que havia outros padrões se formando.
No início, tive medo. Algumas sensações eram tão intensas e desconhecidas que me assustavam. Depois de me certificar de que não havia algo grave acontecendo, consegui olhar para aquela experiência com um pouco mais de curiosidade.
Comecei a perceber que alguns sintomas se repetiam em determinadas fases do meu ciclo e passei a registrá-los na minha mandala lunar. Também tentei permanecer com as sensações, sem fazer imediatamente alguma coisa para que passassem.
Aos poucos, essas observações me ajudaram a compreender que eu estava entrando na perimenopausa.
Saber mais sobre os sintomas me ajudou a reconhecer o que estava acontecendo, mas não me diz como será essa travessia. Cada mulher vive esse período de uma maneira diferente.
Conhecer os sinais não é o mesmo que conhecer o que virá.
Isso não significa permanecer passiva diante do que acontece. Pelo contrário. Quanto mais escuto meu corpo, mais consigo perceber aquilo de que ele precisa.
Nesse processo, busquei formas de me cuidar, comecei a ler mais sobre a perimenopausa e a escutar outras mulheres que atravessam — ou já atravessaram — essa fase. Tenho conversado também com minha mãe sobre como foi para ela. Cada relato é diferente, e talvez isso tenha me ajudado justamente a compreender que não existe um roteiro pronto.
Quando conversar com minha médica, levarei comigo não apenas dúvidas, mas também alguns meses de observações sobre meu próprio corpo. Isso me dá a sensação de poder participar de maneira mais consciente das escolhas que faremos para essa fase.
Não sei como serão os próximos anos nem como meu corpo atravessará a menopausa. Posso me informar, observar, cuidar e me preparar. Mas não posso viver antecipadamente aquilo que ainda não aconteceu.
Talvez permanecer presente nesse limiar seja também isso: não preencher o desconhecido com tudo aquilo que temo que possa acontecer, sem deixar de fazer o que está ao meu alcance agora.
Talvez por isso eu tenha sido tão atravessada, nesses últimos meses, pelo conceito de bardo, no budismo tibetano.
De maneira muito simples, bardo pode ser compreendido como um estado intermediário, um “entre”. Embora seja muito conhecido pelos ensinamentos relacionados à morte e ao renascimento, tenho pensado nesse conceito também a partir das transições que atravessamos enquanto estamos vivos.
Há momentos em que aquilo que conhecíamos já não está inteiramente presente, mas aquilo que virá ainda não se revelou. Não podemos voltar exatamente ao que éramos e também não sabemos ainda o que seremos.
Talvez seja justamente essa ausência de chão que torne os limiares tão desconfortáveis. Diante da incerteza, é fácil tentar preenchê-la rapidamente: com expectativas, previsões, medo, histórias sobre o que poderá acontecer.
Tenho percebido que permanecer nesse “entre” exige outra coisa de mim: não saber por algum tempo.
Curiosamente — ou não —, enquanto essas questões me atravessavam, participei de uma palestra de James Low, a convite de Lama Padma Santem, intitulada Como desenvolver saúde mental em um mundo em chamas.
Em determinado momento, ele falou sobre a possibilidade de permanecermos abertos diante da vida. Sobre como nos apegamos às identidades e às ideias que construímos sobre nós mesmos e, muitas vezes, respondemos ao que acontece a partir delas, repetindo padrões que já conhecemos.
Pouco depois, encontrei uma pequena passagem de James Low publicada pelo perfil James Low Brasil que ficou comigo:
“Estar aberto significa trabalhar com as coisas como elas são. Significa permitir que ela — nossa vida, nossa situação — se revele a nós. Significa não estar preocupado, não estar cheio de opiniões fortes, mas sim manter uma curiosidade genuína e profunda, e simplesmente permanecer com o que quer que esteja acontecendo.” — James Low |
Reconhecer os sinais sem transformá-los em certezas.
E não precisar saber, agora, tudo aquilo que ainda está por vir.

Pôr-do-sol no cerrado por Thauana Pessoa
Volto a olhar para o Cerrado. O vento continua forte e as sementes aladas continuam atravessando o ar.
Ainda não sei quando chegarão as primeiras chuvas.
O tempo no Cerrado está mudando.
Meu corpo também.
A primavera ainda não chegou.
Mas também já não é exatamente o inverno que era.
E, enquanto isso, a vida continua acontecendo no entre.
Até a próxima carta,
Thauana
entre raízes e silêncio
