
Brotos - Pau Santo (Kielmeyera speciosa).
Dia 22 de setembro marca o equinócio de primavera no hemisfério sul. É o momento do ano em que dia e noite se aproximam do equilíbrio. Daqui até a chegada do verão, os dias vão ficando mais longos.
A primavera é conhecida como a estação das flores, mas, daqui do Cerrado de onde eu a vivo, ela não começa assim.
Atualmente tenho observado muitos brotos vermelhos. O pau-santo, árvore emblemática do Cerrado, é uma das árvores que começa a se cobrir deles. Em muitas árvores, os galhos já estão cobertos de brotos, enquanto o capim continua seco.
No meu jardim, as frutíferas começaram a florir. Descobri uma muito delicada, a cerejinha-de-folhas-finíssimas (Eugenia angustissima), além da gabirobeira. A cerejinha se parece com um alecrim, porém não é aromática. As flores são bem pequenas e rosadas.

Cerejinha-das-folhas-finíssimas (Eugenia angustissima). Por Thauana.
Depois de alguns dias, transformaram-se em pequenos frutos vermelhos sem muito sabor, para a decepção da minha filha.

Frutos da Eugenia angustissima por Thauana.
Muitas vezes os brotos são muito discretos. E nem todos vão virar flores.
Tenho pensado nisso.
Quando comecei a estudar a Roda Medicinal com Léo Artese, havia me mudado, há cerca de um ano, para uma chácara bem simples. Foi ali que comecei a perceber com mais atenção os ciclos que aconteciam do lado de fora.
Por dentro, no entanto, eu tentava forçar um movimento.
Muitas vezes, de um lugar de ansiedade
Eu era autônoma, tinha uma filha pequena e sentia que precisava fazer meu trabalho florescer. Queria passar meu tempo naquele lugar, mais próxima da natureza. Imaginava receber pessoas ali para aulas de yoga, terapias e outros encontros.
Mas isso não aconteceu.
Não do jeito que eu queria. E, ainda hoje, não sei exatamente por quê.
Como precisava continuar trabalhando, passei a atender alguns dias da semana na cidade. Nos outros, ficava na chácara.
E foi nesse tempo que comecei a observar mais.
Comecei a plantar, a acompanhar o crescimento das plantas, a fazer sabão, tinturas, incensos e outras coisas com as próprias mãos. Passei a trabalhar menos e pude estar mais presente na infância da minha filha, sem precisar colocá-la em uma creche.
Lembro-me de fazer uma mandala de ervas com minha família. Meu companheiro preparou o terreno; eu e minha filha preparamos o solo e plantamos as mudas. Havia erva-baleeira, vinagreira, crajiru, entre outras plantas medicinais, além de hortaliças como alface e rúcula.
Minha filha ajudava a colocar as mudas na terra e escolheu uma florzinha azul para plantar junto. Ela tinha três anos na época e ficou bem empolgada ao ver a mandala crescer.
Mais tarde, em outra chácara onde moramos, também plantei muitas coisas. Com a abundância dessas plantas, fazia meus produtos.
A vida que eu havia imaginado para aquele lugar não estava acontecendo.
Mas alguma outra coisa estava.
Naquela época, talvez eu ainda não percebesse aquilo como um florescimento. Eu continuava olhando para o meu trabalho e esperando que alguma coisa acontecesse ali.
Hoje percebo que o florescimento começou também na maneira como eu enxergava o mundo.
Comecei a perceber com mais clareza o quanto tentamos encaixar nossa vida em determinadas expectativas: de trabalho, de sucesso, de produtividade, de como uma vida deveria ser.
Para mim, dar certo era ganhar dinheiro suficiente para ter autonomia e um pouco de lazer. E eu me esforçava muito para isso.
Naquela época, ouvi Lama Samten falar sobre a importância de simplificar a vida. Foi algo que ficou comigo.
Comecei a buscar isso: menos contas, menos compromissos, menos coisas para sustentar.
E, de alguma maneira, quando fui diminuindo o ruído, outras coisas começaram a encontrar espaço.
Continuo achando que autonomia e tempo para desfrutar a vida são importantes. O que talvez tenha mudado seja a maneira como tento encontrá-los.
Com minha professora Márcia Baja, tenho aprendido sobre a importância de criar espaços de silêncio e contemplação. De não tentar encontrar todas as respostas acrescentando mais pensamentos, mais conteúdos, mais esforço.
Encontro esse espaço em vários momentos da minha vida, mas principalmente na meditação, na contemplação, no yoga e junto da natureza. Em muitos momentos, as preocupações ainda me tiram do eixo, mas sempre volto para esses lugares.
E agora, tantos anos depois, me encontro novamente diante de muitos brotos.
Estou começando devagar a construir um trabalho mais próximo da maneira como quero viver. Algumas coisas começam a tomar forma. Outras ainda não sei para onde vão.
E não é fácil.
Ainda existem as contas, as necessidades concretas da vida e a preocupação de fazer com que esse trabalho também possa me sustentar.
Às vezes reconheço em mim aquela mesma ansiedade. A vontade de saber logo o que vai dar certo. Qual caminho devo seguir. Qual desses brotos vai florescer.
E talvez seja por isso que a chegada desta primavera esteja me fazendo pensar tanto sobre a diferença entre cuidar e controlar.
Consigo perceber essa diferença também no meu corpo.
Quando saio do cuidado e entro no controle, há tensão, ansiedade e desvitalização. Há reatividade.
Quando consigo apenas observar o conteúdo da mente, sem tentar resolver nada naquele momento, alguma coisa muda. O corpo relaxa. Há mais vitalidade e clareza.
Mas a clareza nem sempre chega imediatamente.
Às vezes é preciso permanecer um pouco nesse espaço sem resposta. Ter paciência.
Aos poucos, fica mais fácil perceber o que realmente precisa ser feito e o que era apenas uma tentativa de acabar com a incerteza.
Quando quero que uma planta cresça, procuro conhecer sua natureza. Preparo o solo com aquilo de que ela precisa, rego, observo a quantidade de sol.
Posso criar condições. Posso cuidar.
Mas não posso fazê-la crescer.
Por mais que queiramos que certos brotos floresçam, não temos garantia nenhuma.
Talvez cuidar seja fazer aquilo que está ao meu alcance sem acreditar que, por isso, posso determinar o resultado.
Hoje é equinócio de primavera.
Está muito quente e seco. O capim continua seco e a chuva ainda não chegou de verdade.
Na mimosa ao lado de casa, o casal de sanhaços que venho observando teve dois filhotes.
De vez em quando vejo os pais chegando ao ninho para alimentá-los. Eles ainda são pequenos e dependem inteiramente desse cuidado.
Olho novamente para os brotos vermelhos nas árvores, para as flores pequenas do meu jardim e para aquele ninho escondido na mimosa.
A primavera chegou sem que a paisagem estivesse pronta.
Na mimosa ao lado de casa, dois filhotes de sanhaço esperam os pais voltarem ao ninho.
Entre raízes e silêncio,
Thauana.
