Fim do inverno. Lua minguante.
Nas minhas caminhadas dessa semana, algo me surpreendeu. Apesar da secura, do calor e da poeira, algumas plantas começavam a brotar. Até mesmo algumas que eu julgava estarem mortas começaram a brotar também.
No local onde gosto de fazer minhas meditações, havia uma planta caída e completamente seca. Sentei e, ampliando o olhar, pude perceber pequenos brotos verdes.

Planta no local de meditação. À primeira vista, seca. Por Thauana

De perto, pequenos brotos verdes. Por Thauana
A mesma coisa aconteceu com algumas plantas do meu quintal. Minha muda de maracujá-do-cerrado secou completamente e as folhas caíram, porém o caule ainda estava verde. Continuei molhando, na esperança de que não morresse, e essa semana novas folhas apareceram.
O mesmo ocorreu com o quitoco que comprei. Esqueci de aguar por alguns dias e ele secou. Fiquei triste porque me senti responsável, mas, felizmente, ele também começou a brotar de novo.
Infelizmente, não aconteceu a mesma coisa com a muda de melaleuca que comprei. Assim que a adquiri, houve uma ventania de dois dias e ela começou a secar. Perguntei ao vendedor e ele me disse que ela devia ter sofrido um choque térmico, mas que iria rebrotar. Já faz mais de um mês e ela continua do mesmo jeito.
O Cerrado é chamado de floresta de cabeça para baixo, pois muitas de suas árvores possuem raízes muito profundas, que lhes permitem atravessar longos períodos de estiagem. Mas não foi somente nas árvores que observei brotos: vários arbustos e plantas rasteiras também começaram a brotar.
Muitas plantas do Cerrado possuem estruturas subterrâneas que armazenam reservas e permitem que voltem a brotar depois de períodos desfavoráveis. Entre elas estão os xilopódios, além de diferentes tipos de raízes e caules subterrâneos.

Prancha botânica - O que permanece sob a terra.
Bem em frente à minha casa há um pé de araçá muito pequeno, carregado de pequenas frutas. O mesmo aconteceu com o cajuzinho. Ambos não têm nem um metro de altura ainda.

Cajuzinho-do-cerrado: frutos em diferentes estágios, em plena paisagem seca.
O cajuzinho também possui xilopódios. Curiosamente, aqui no Cerrado temos a expressão “chuva do caju”, aquela chuva rápida e inesperada que chega antes da primavera e que, no conhecimento popular, ajuda o caju a “vingar”.
Ouvi trovões. Senti o cheiro da chuva.
Sim, a chuva do caju chegou essa semana.
Sinto e vejo o anúncio da primavera. Ela chegará em breve.
Fico refletindo sobre essa inteligência que permeia a própria vida. Que muitas vezes é invisível.
Talvez o que tenha me surpreendido seja perceber o quanto acontece antes que eu possa ver.
Olho para essas plantas e penso em tudo o que acontecia debaixo da terra enquanto, do lado de fora, eu via apenas galhos secos.
Penso também na minha própria natureza. Em quantos processos acontecem dentro de mim sem que eu os perceba. Em coisas que talvez estejam se transformando muito antes que eu consiga dar nome a elas.
Há muito que ainda não compreendo.
Talvez por isso eu tenha sentido tanta vontade de continuar olhando.
Sigo observando esse mistério com atenção. Não para encontrar necessariamente uma resposta, mas para aprender a reconhecer seus sinais.
Os brotos crescendo na seca são sinais.
Cajuzinho e araçá frutificando também são.
Trovões e nuvens no céu são sinais.
O alívio que eu sinto de manhã depois de um dia de chuva, também.
Volto a olhar para a planta no meu local de meditação. Achei que era uma quaresmeira morta, mas não é.
É uma planta que está viva e eu ainda não sei o nome.
Entre raízes e silêncio,
Thauana.

