Voltei para minha cidade natal percorrendo cerca de mil quilômetros de carro para poder votar.

Depois da votação, cheguei à casa do meu pai. Não havia internet, então eu não sabia como estava o andamento da apuração.

Já estava escuro quando ouvi nossos amigos vizinhos. Ora cantavam, ora ficavam em silêncio. Fiquei sem saber se estavam comemorando ou preocupados com o resultado.

Desci a pé até a casa deles.

Quando cheguei, me contaram que tínhamos conseguido virar a eleição.

Senti tanto alívio e felicidade que me emocionei.

O mês de outubro foi muito intenso para mim.

O avanço da extrema direita no primeiro turno me deixou assustada e desanimada. Lembrei das pautas antiambientalistas do governo Bolsonaro. Quem não se lembra do ex-ministro Ricardo Salles dizendo, em uma reunião de governo, que era uma oportunidade para “passar a boiada” nas normas ambientais?

Mas a principal imagem que me vinha à mente era a de uma criança Yanomami extremamente desnutrida, no colo da jornalista Sônia Bridi.

Essa imagem me marcou profundamente.

Também me marcou saber que a Hutukara Associação Yanomami havia enviado 21 ofícios com denúncias e pedidos de ajuda a órgãos do governo Bolsonaro, sem que houvesse uma resposta capaz de impedir o agravamento da violência. Enquanto isso, garimpeiros invadiam suas terras, contaminavam os rios, destruíam suas roças e ameaçavam suas comunidades.

Quando Lula assumiu a Presidência, em janeiro de 2023, foram necessários apenas 20 dias de governo para que fosse declarada emergência de saúde pública no território Yanomami e mobilizada uma resposta federal à crise humanitária.

Desde então, me aproximei mais da cultura Yanomami, especialmente de sua maneira de compreender os sonhos, por meio do livro O desejo dos outros, de Hanna Limulja.

Quando vi Flávio Bolsonaro em primeiro lugar no primeiro turno, temi muito pelos povos indígenas, pelas florestas, pelo Cerrado, por nós, mulheres, e pelas crianças.

A possibilidade de continuidade das políticas do governo de seu pai me preocupava profundamente, especialmente em relação ao meio ambiente e à ampliação do acesso às armas.

Fiquei triste e com pouca esperança. Também me preocupavam as denúncias de possível interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira e os interesses por trás disso. Havia ainda questionamentos sobre o tratamento das campanhas pelas plataformas digitais, especialmente pela Meta.

Uma virada me parecia muito difícil.

Foi então que comecei a acompanhar uma grande mobilização, nas ruas e na internet.

Pessoas se reuniam, compartilhavam informações e se organizavam para conversar com eleitores indecisos. Eu também participei desse movimento.

Fiquei surpresa ao ver tantas pessoas se posicionando publicamente em defesa da democracia. Entre elas estavam praticamente todos os meus professores e muitas pessoas que admiro.

Em meio à preocupação, encontrei acolhimento. Percebi que havia muita gente compartilhando meus sentimentos e disposta a agir.

Aquilo me trouxe um senso de pertencimento e comunidade que eu não esperava encontrar naquele momento.

E conseguimos virar a eleição!

A união fez a força.

Desde a eleição, tenho pensado muito sobre a cooperação.

Outro dia, na escola da minha filha, fiquei observando uma jabuticabeira coberta de flores e inúmeras abelhas que as visitavam.

Jabuticabeira florida da escola da minha filha. Fotograma de vídeo.

Pensei nas tantas relações que sustentam a vida. As abelhas encontram alimento nas flores e, ao visitá-las, participam da polinização. Os frutos que se formam alimentam outros animais, que também podem contribuir para a dispersão das sementes.

E essas relações vão muito além do que conseguimos observar. Abaixo da terra, raízes, fungos e microrganismos também interagem. A água, o solo e as estações do ano fazem parte dessa rede.

Tenho pensado em como nós também dependemos uns dos outros, embora muitas vezes nos esqueçamos disso.

Tenho pensado também no povo Kalunga, aqui na Chapada dos Veadeiros.

Descendentes de pessoas que resistiram à escravização, os Kalunga construíram comunidades e preservaram conhecimentos sobre a terra, o cultivo e as plantas ao longo das gerações.

Meus vizinhos são Kalunga. Já contei um pouco sobre nossa convivência na carta Um cacho de bananas. Eles costumam compartilhar conosco alimentos que cultivam em suas terras, como frutas, amendoim, arroz e farinha. Nós também os ajudamos, bombeando água para eles.

Arroz Kalunga compartilhado por nossos vizinhos.

São trocas simples do cotidiano, mas que me fazem pensar sobre a importância de cuidar uns dos outros.

Penso também nos povos indígenas, que resistem há séculos à violência da colonização e continuam defendendo seus territórios, culturas e modos de vida.

São histórias diferentes, mas que me fazem refletir sobre a força dos vínculos comunitários, sobre os conhecimentos transmitidos entre gerações e sobre outras maneiras de nos relacionarmos com a terra e com as pessoas.

Sei que ganhar uma eleição não assegura os direitos dos povos indígenas, nem a proteção das florestas e de todas as formas de vida que dependem delas.

Há muito a ser feito. E o cuidado com a vida não pode depender apenas de um governo.

Mas esses últimos dias me trouxeram esperança. Vi o que podemos fazer quando nos reunimos, compartilhamos conhecimentos e trabalhamos por algo que consideramos importante.

Aquela noite, quando caminhei até a casa dos vizinhos e recebi a notícia do resultado, continua muito presente em mim.

Sinto alívio, mas também uma vontade ainda maior de participar, de fortalecer os vínculos e de não deixar que essa mobilização termine com a eleição.

Quero continuar unindo forças para cuidar da vida.

Entre raízes e slêncio…

Thauana.

Referências

The Intercept Brasil (2022). Reportagem sobre 21 ofícios da Hutukara Associação Yanomami. https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/governo-bolsonaro-ignorou-21-oficios-com-pedidos-de-ajuda-dos-yanomami

Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 28, de 20 de janeiro de 2023. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/coes/coe-yanomami/legislacao

Hanna Limulja. O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami.

Agência Brasil. STF determina apuração de possível interferência estrangeira no processo eleitoral, 27/10/2026. https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-10/dino-manda-pf-apurar-interferencia-externa-no-processo-eleitoral