Do lado de cá, do lado de lá.

Hoje o dia amanheceu chuvoso e permaneceu assim.

Apesar de estar próxima a uma grande cidade, estou em uma chácara cercada de árvores e animais. Acordei com o barulho de um sabiá bicando o vidro.

Na verdade, foram dois ao longo da manhã. Um sabiá-laranjeira e outro, cinza. Os dois se aproximaram do vidro e reagiram ao próprio reflexo.

Nesta época do ano, esse comportamento pode acontecer com algumas aves. Ao encontrar a própria imagem refletida, podem percebê-la como outro indivíduo e tentar defender seu território.

Uma vizinha me contou que uma seriema tem feito a mesma coisa nos vidros da casa e do carro, com tanta força que ela teme que chegue a trincá-los.

Geralmente aprecio muito esses dias. Gosto do cheiro de terra molhada, do canto dos pássaros, do barulho da chuva...

Mas hoje foi diferente.

Estou na minha cidade natal para participar das eleições e resolver outras coisas.

Ver crescer a presença de políticos que defendem o enfraquecimento de mecanismos de proteção ambiental é profundamente desafiador para mim.

Principalmente porque sinto que precisamos caminhar justamente na direção contrária.

Se quisermos garantir condições para a continuidade da vida humana neste planeta, precisaremos aprender cada vez mais sobre preservação, cooperação e interdependência.

E, no entanto, vejo ganhar força uma lógica de dominação e destruição.

Existe uma contradição nisso que tenho dificuldade de compreender.

Uma pesquisa recente mostrou que 91% dos brasileiros entrevistados consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Noventa por cento consideram muito importante que as políticas públicas priorizem a proteção ambiental.

Quando perguntadas sobre os problemas mais urgentes do país, porém, outras questões aparecem primeiro: segurança, custo de vida, violência contra as mulheres, saúde.

E eu consigo compreender.

São problemas que atravessam a vida agora, de maneira muito concreta. Talvez a crise climática ainda pareça, para muitas pessoas, algo mais distante.

Mas começo a me perguntar se parte da dificuldade não está justamente em perceber as relações entre essas coisas.

O clima, a água, a produção de alimentos, a saúde, a economia, a maneira como ocupamos a terra. Nada disso acontece separadamente.

E eu penso no que pode estar por vir.

Penso no fogo e no desmatamento. Nos eventos extremos, nas chuvas intensas, na perda da biodiversidade. Penso também em algo tão básico quanto plantar e colher alimentos.

E penso na minha filha.

Talvez seja essa a parte mais difícil para mim. Imaginar as condições em que ela viverá daqui a algumas décadas e saber que muitas das dificuldades que poderá enfrentar eu sequer consigo prever.

Enquanto escrevo, continua chovendo lá fora.

Os pássaros continuam chegando às árvores. A terra está molhada. Há tanta vida ao meu redor que é difícil conciliar essa paisagem com aquilo que temo para o futuro.

Diante de tudo isso, meu primeiro sentimento é de impotência.

Há problemas tão grandes, atravessados por tantos interesses, que é difícil imaginar o que uma pessoa pode fazer diante deles.

Mas, quando volto a olhar para a natureza e para as relações que acontecem nela, lembro que também faço parte disso.

Nossa vida depende dessas relações. Das plantas, dos polinizadores, da água, do solo e de uma rede imensa de seres que sustenta também a nossa existência.

O antropocentrismo é uma questão que me atravessa há muito tempo. Essa dificuldade de nos reconhecermos não como donos, mas como parte.

E há ainda a consciência de que estamos de passagem por aqui.

Um dia vamos morrer e deixar tudo.

Não importa quanto dinheiro conseguimos acumular, quantas coisas possuímos ou quanto poder exercemos.

Talvez lembrar da morte seja também lembrar do nosso lugar.

Estamos aqui por um tempo.

Talvez seja por isso que, diante da impotência que senti nesses últimos dias, comecei a pensar menos naquilo que posso fazer sozinha e mais nas relações das quais quero participar.

Acompanho, desde a sua fundação, as reuniões virtuais de uma comunidade que experimenta outras formas de coexistência.

Eles não estão isolados do sistema, mas, dentro daquele pequeno núcleo, procuram construir relações que não partam da dominação.

Todos participam. Não há um chefe a quem os outros devam obedecer. E essa experiência alcança também a relação com a terra.

O que os guia é a preservação da vida.

Talvez seja isso que eu esteja procurando: formas de participar da vida a favor dela.

E essa participação não precisa ser igual para todos. Talvez nem pudesse ser. Cada pessoa ocupa um lugar, estabelece relações diferentes e tem algo diferente a oferecer.

Mas como reconhecer a nossa?

Lembro de algo que minha professora de meditação costuma dizer.

Ela fala sobre a importância de permanecermos relaxados. Não no sentido de indiferença ou passividade, mas de não nos contrairmos diante daquilo que acontece.

É nesse espaço vazio que podemos começar a perceber como participar da vida.

Não imagino que isso aconteça como uma resposta clara que surge de repente.

Talvez sejam pequenas percepções. Coisas sutis que vão mudando e que, aos poucos, conseguimos perceber.

E alguma forma de participação começa a se revelar.

Os sabiás que bicavam o vidro pela manhã foram embora depois que me viram.

Volto àquela cena. Atacavam o próprio reflexo como se estivessem diante de outro.

Talvez façamos algo parecido.

Olhamos para a natureza como se ela estivesse do outro lado do vidro.

Como se houvesse nós, de um lado, e todo o restante da vida, do outro.

Mas não há.

Aos poucos, começo a reconhecer algumas formas de participar.

Mas sinto que ainda há muito a ser revelado.

Entre raízes e silêncio…

Thauana.