
Beija-flor em casa.
Há alguns dias, um beija-flor entrou em casa pela manhã. Ele não conseguia encontrar a saída. Voava de um lado para o outro na parte superior do chalé, onde há vidros que não abrem. Chegava perto de um deles, percebia que não era possível sair e voava em direção ao outro.
Abri todas as janelas e portas para que pudesse sair, mas, mesmo assim, ele não encontrava uma saída. Ficou assim por um bom tempo.
Saí de casa para que ele não ficasse com medo de mim.
Fiquei pensando nos vários momentos da vida em que nos sentimos sem espaço.
Observo minha própria condição. Mudei-me de uma casa grande, com muitos cômodos e uma cozinha ampla, para um chalé de 60 m².
A sensação de falta de espaço me acompanha em muitos momentos. Quando não encontro um lugar adequado para gravar minhas aulas, trabalhar ou guardar meus materiais de fazer sabão e tinturas, sinto frustração por não conseguir desenvolver meu trabalho como gostaria.
Às vezes, fico tão concentrada naquilo que falta que parece não haver espaço para mais nada.
Mas, quando saio de casa, encontro uma paisagem muito ampla. Grandes morros de Cerrado se estendem diante de mim. Quase imediatamente, minha exalação se alonga e o corpo relaxa.
A sensação de espaço volta.

Cerrado amplo.
Tenho percebido que também posso experimentar esse espaço sem precisar sair de casa.
No Yin Yoga, ao permanecer relaxada em uma postura, respirando e sentindo o contato com o chão, percebo que o corpo vai cedendo aos poucos. O relaxamento se aprofunda, a respiração se acalma e a mente também acompanha esse movimento.
Sinto como se houvesse mais espaço dentro de mim.
Na meditação, porém, nem sempre é tão fácil.
Quando me sento e começo a observar a mente, percebo a quantidade de conteúdos que surgem: pensamentos, memórias, medos, preocupações. Às vezes, parece que não existe espaço para mais nada.
Mas, aos poucos, começo a perceber os intervalos entre um pensamento e outro.
Os pensamentos continuam aparecendo, mas começo a reconhecê-los como eventos mentais, sem precisar me identificar com tudo aquilo que surge.
É uma das partes mais difíceis da prática para mim.
Por isso, observar o espaço no corpo me ajuda tanto. Posso voltar a sentir o contato com o chão, perceber a respiração, relaxar as tensões.
O corpo é como uma âncora para a meditação. Ele está sempre presente, mesmo quando a mente parece estar em muitos lugares ao mesmo tempo.
Tenho percebido que essas experiências me ajudam também fora das práticas.
Quando me vejo frustrada, muito concentrada naquilo que falta, procuro reconhecer o que está acontecendo comigo.
Recorro ao corpo, à respiração, à meditação. Nem sempre a sensação muda imediatamente. Muitas vezes preciso voltar a essas práticas ao longo do dia.
A casa continua do mesmo tamanho. Ainda preciso de um lugar adequado para trabalhar e guardar meus materiais.
Mas, quando consigo experimentar esse espaço, alguma coisa muda na maneira como me relaciono com essas dificuldades.
Sinto mais leveza, esperança e criatividade.
Não significa que eu tenha encontrado uma solução. Muitas vezes continuo sem saber o que fazer.
Mas volto a sentir que existem possibilidades, mesmo sem saber ainda quais são.
Volto para casa depois de algum tempo. As portas e janelas que abri para o beija-flor continuam abertas.
Ele já não está lá.
O que restou foi o espaço vazio.
Entre raízes e silêncio…
Thauana.
