Há alguns dias, durante uma caminhada, encontrei um pé de pequi, como costumamos dizer aqui em Goiás. Parei para contemplá-lo.
Seu tronco carregava traços tão comuns às árvores do Cerrado: a casca grossa, os galhos retorcidos, uma força que não precisava de imponência. Passei a mão pelas folhas. Eram macias como veludo.
Não era uma árvore muito grande. Crescia entre tantas outras de porte semelhante que demorei um pouco para reconhecê-la.
Naquele instante, lembrei-me de duas árvores que meu pai e eu plantamos há mais de vinte anos, na entrada da nossa antiga casa, em Goiânia: um pequizeiro e um jacarandá-mimoso.
Poucos anos depois nos mudamos, mas continuamos no mesmo bairro e pudemos acompanhar o crescimento das duas.
Até que um dia percebi que o jacarandá havia sido cortado.
O pequizeiro permaneceu.

O pequizeiro que plantei com meu pai há mais de vinte anos. Foto feita pela minha mãe, agosto de 2026.
E, com o passar dos anos, tornou-se uma árvore frondosa. Eu e meus pais sempre reparávamos no quanto havia crescido, comentávamos quando estava carregado de frutos e, vez ou outra, aparecia a mesma preocupação: tomara que não cortem o pequizeiro também.
Talvez tenha sido também acompanhando aquela árvore que aprendi que conhecer uma planta muda a maneira como passamos a enxergá-la.
Muitas vezes, quando nos aproximamos de uma espécie, uma das primeiras perguntas que fazemos é: para que ela serve?
Queremos saber se é medicinal, se seus frutos são comestíveis, se oferece boa sombra, se sua madeira pode ser utilizada.
Não há nada de errado nisso. Nossa relação com as plantas também foi construída por meio dessas trocas, e muitos dos conhecimentos que temos hoje foram cultivados e transmitidos ao longo de gerações.
Mas tenho pensado que uma relação não precisa começar por aquilo que podemos receber.
Talvez ela possa começar simplesmente pelo desejo de conhecer.
Conhecer seu nome. Aprender a reconhecer suas folhas. Tocar sua casca. Perceber quando perde folhas e quando brota novamente. Esperar pela floração. Observar quem se aproxima dela.
Encontrar aquela árvore muitas vezes, até que ela deixe de ser apenas mais uma árvore na paisagem.
Talvez seja assim que um vínculo começa.
Sempre me pergunto por que vemos tão poucos pequizeiros nas cidades.
Cresci em Goiânia, no coração do Cerrado, mas boa parte das árvores que aprendi a reconhecer pelas ruas não pertence originalmente a esse território.
Nas cidades, é comum encontrarmos muitas espécies trazidas de outros lugares. Algumas convivem bem com a vegetação local. Outras podem se tornar invasoras e competir com espécies nativas.
E isso sempre me pareceu curioso.
Vivemos em um dos países com maior biodiversidade do mundo e, ainda assim, muitas vezes conhecemos muito pouco as plantas que pertencem aos lugares onde vivemos.
Talvez seja falta de informação. Talvez seja também consequência de uma maneira de construir cidades em que escolhemos primeiro aquilo que é mais conveniente para nós e só depois pensamos nas relações que aquela escolha estabelece com a paisagem.
Um pequizeiro não é apenas uma árvore ocupando determinado espaço.
Suas flores, frutos, folhas, galhos e raízes participam de uma rede de relações. Há seres que encontram nele alimento, abrigo ou lugar de passagem.
Uma árvore nunca existe sozinha.
Um convite
Nesta semana, escolha uma árvore que faça parte dos seus caminhos.
Pode ser aquela diante da sua casa, uma árvore da rua por onde você passa todos os dias ou uma que encontra durante uma caminhada.
Se ainda não souber seu nome, procure conhecê-lo.
Observe suas folhas, sua casca, o desenho dos galhos. Veja se há flores, frutos ou sementes. Repare nos seres que se aproximam dela.
Não é preciso colher nada.
Não é preciso fazer nada com ela.
Por enquanto, apenas conheça.

Paisagens que cuidam
Observando as plantas e os outros seres à nossa volta, temos a oportunidade de começar a conhecê-los.
Como cada ser habita essa paisagem?
Quais deles são originalmente daqui?
Quais chegaram depois?
Quem visita suas flores? Quem se alimenta de seus frutos? Quem encontra abrigo entre seus galhos?
Quando começamos a fazer essas perguntas, deixamos de enxergar a paisagem apenas como cenário e começamos a perceber as relações que acontecem nela.
Conhecer quais espécies pertencem originalmente a um território pode nos ajudar a fazer escolhas mais cuidadosas sobre os lugares que habitamos.
Não porque uma planta que veio de outro lugar tenha menos valor, mas porque as espécies nativas participam de relações construídas naquele território ao longo do tempo.
Talvez uma paisagem que cuida seja justamente aquela em que nossas escolhas deixam espaço para que essas relações continuem acontecendo.
Às vezes ainda penso nas duas árvores que meu pai e eu plantamos naquele dia.
O jacarandá já não está lá.
O pequizeiro continua.
O afeto que tínhamos por aquelas árvores não foi suficiente para manter o jacarandá de pé. Mas fez com que sua ausência não passasse despercebida.
Quando aprendemos o nome de uma árvore, reconhecemos suas folhas, acompanhamos suas mudanças e começamos a nos importar com sua permanência.
Não apenas por aquilo que ela pode nos oferecer, mas porque sua existência passou a importar para nós.
Talvez o afeto não seja suficiente para proteger uma paisagem. Mas dificilmente cuidaremos daquilo que nunca aprendemos a conhecer.
Entre raízes e silêncio,
Thauana

