Fim de Inveno. Lua Crescente.
Desde que me mudei para uma chácara, há cinco anos, uma árvore chamou minha atenção.
Na esquina da estrada de terra havia uma árvore muito grande, imponente. Seus galhos atravessavam a rua e sua sombra alcançava toda a esquina.
Me falaram que era um jatobá.
Na chácara onde eu morava também havia uma árvore, mas era jovem perto daquela da esquina.
No fim do inverno, elas frutificavam. Seus frutos têm uma casca muito dura, que só conseguimos abrir com uma pedra ou martelo. Fiquei pensando que tipo de animal conseguiria se alimentar deles.

Frutos do Jatobá.
A outra chácara onde morei, antes de me mudar para a Chapada, recebeu justamente o nome de Chácara Jatobá, devido à grande quantidade dessas árvores na região. Havia muitos jatobás pelo caminho de terra. Eram as árvores mais lindas e grandiosas.
Na Chácara Jatobá havia também muitos macacos. Eles amam frutas e ovos. Se não ficarmos atentos, ficam com tudo para eles: mandioca, manga, cana, ingá, jabuticaba...
Mas os jatobás permaneciam no chão porque eles não conseguiam abrir os frutos. Não por falta de tentar.
Eu sempre pensei em como aproveitar aquela abundância.
Minha filha adora comer jatobá, apesar de ficar com os dentes verdes, pois a polpa gruda muito. Por isso, é difícil comer muitos frutos dessa maneira.

Polpa do Jatobá.
A forma mais fácil que encontrei de consumi-los foi através da farinha.
Semana passada, ganhei dois sacos de jatobá do meu vizinho e resolvi aproveitar para fazer farinha e experimentar algumas receitas.
Não é difícil porque a própria polpa já é farinácea. Basta retirar a polpa e separá-la das sementes. Depois, bater no liquidificador e peneirar para retirar as partes mais grosseiras.
Minha tia me aconselhou a colocar a farinha um pouco no forno antes de guardar, para retirar a umidade e evitar que mofe.
Depois disso, ela está pronta para ser usada em bolos, bolachas, vitaminas e mingaus.
Já testei todos esses preparos e o resultado me surpreendeu. Aqui em Alto Paraíso, já experimentei até sorvete de jatobá.
Aqui em casa, uma bolachinha de banana com jatobá tem feito muito sucesso. Vou compartilhar a receita mais abaixo.
Também me surpreendeu descobrir o quanto o jatobá é rico em fibras e minerais.
Em 100 g de farinha podem existir cerca de 60 g de fibras solúveis e insolúveis, além de quantidades interessantes de potássio, cálcio e magnésio.
Fico pensando nos jatobás apodrecendo no chão enquanto nossa dieta está cada vez mais pobre em fibras. Quantos alimentos do nosso Cerrado são nutritivos e pouco utilizados por nós?
Eu conhecia o jatobá desde a infância, mas consumia muito pouco. E sempre in natura. Agora, quando vejo frutos no chão, colho alguns e faço farinha para usar ao longo do ano.
Essa semana aprendi também a queimar a casca do fruto do jatobá como um incenso. Ela é resinosa e muito aromática. Quando queimada, libera um cheiro que eu gosto muito.
Tenho também um livro chamado Fermentação à brasileira, onde há uma receita de cerveja selvagem com a casca do jatobá. Está na minha lista de experimentações.
E o alimento é apenas uma das formas pelas quais o jatobá tem sido usado.
Quanto mais fui pesquisando, mais fui descobrindo uma longa história de uso dessa árvore na medicina popular. A casca da árvore aparece em preparações tradicionais para tosse, bronquite e outros problemas respiratórios, assim como a resina. A seiva também é utilizada tradicionalmente em algumas regiões.
Mas, apesar de tudo isso, talvez o que mais me encante no jatobá continue sendo a própria árvore.
Me intriga encontrá-lo tão pouco nas cidades.
Uma árvore nativa tão bonita, de copa grande, capaz de produzir uma sombra imensa e ainda oferecer alimento e abrigo para a fauna.
Nós não temos tratado muito bem nossas árvores nas cidades. Muitas vezes elas são plantadas em espaços pequenos, cercadas de concreto, sem área suficiente para a infiltração da água e para o desenvolvimento de suas raízes. Não recebem os cuidados necessários e são submetidas a podas inadequadas.
Quando adoecem, quebram ou caem, passam a ser vistas como um problema.
E então começamos a ter medo das árvores grandes.
Mas talvez o problema não seja o tamanho das árvores. Talvez seja a maneira como construímos nossas cidades e o pouco espaço que reservamos para elas.
Acompanho há algum tempo o trabalho do botânico e paisagista Ricardo Cardim, que defende justamente a presença de árvores nativas de grande porte nas cidades. Em seus projetos, o jatobá é uma das espécies utilizadas.
Quando penso nisso, volto àquele jatobá da esquina que conheci há cinco anos.
Seus galhos atravessavam a estrada de terra. Sua copa ocupava a esquina inteira.
Ele tinha espaço para ser uma árvore grande.
Comecei essa história pensando em como aproveitar tantos frutos de jatobá que permaneciam no chão. Descobri a farinha, experimentei receitas, encontrei usos que eu desconhecia e percebi quantas coisas ainda tenho para aprender sobre uma árvore que conheço desde criança.
Mas talvez conhecer uma árvore seja também aprender a conviver com ela.
Não apenas perguntar o que podemos colher, comer ou preparar a partir dela, mas que espaço estamos dispostos a deixar para que ela continue existindo entre nós.
Talvez nossas cidades também precisem reaprender a dar espaço para que uma árvore possa ser uma árvore grande.
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Bolachinhas de banana e jatobá

Bolachas antes de ir para o forno.
Ingredientes
· 2 bananas-nanicas maduras
· ½ xícara de farinha de jatobá
· 1 xícara de aveia
· ½ xícara de farinha de trigo
· 3 colheres (sopa) de óleo de sua preferência
· 1 colher (sopa) de chia
· Canela a gosto
· 1 a 2 colheres (sopa) de açúcar mascavo — opcional
· 1 a 2 colheres (sopa) de água — se necessário
Modo de preparo
Amasse bem as bananas. Acrescente o óleo e misture. Depois, junte a farinha de jatobá, a aveia, a farinha de trigo, a chia, a canela e, se quiser uma bolachinha mais doce, o açúcar mascavo.
Misture até formar uma massa que possa ser modelada e deixe descansar por 10 minutos.
Modele pequenos biscoitos e achate-os levemente com um garfo. Se, depois do descanso, a massa estiver seca ou quebradiça, acrescente a água aos poucos, uma colher por vez, somente até conseguir modelar.
Asse em forno preaquecido a 180 °C por cerca de 15 a 20 minutos, ou até que as bolachinhas estejam firmes e levemente douradas.
Até a próxima carta.
Com carinho,
Thauana.
