Cheguei em casa novamente após nove dias.

Antes de viajar, soube que fariam algumas obras na trilha de entrada da minha casa. Todos os dias, ao subir e descer aquele caminho, costumava observar as flores, árvores, capins e arbustos. Era um lugar de muita diversidade, que eu já conhecia pelos pequenos encontros cotidianos com suas plantas.

Sabia que a obra era necessária. Em dias de chuva ou quando chegávamos à noite, muitas vezes precisávamos deixar o carro lá embaixo e subir a pé. Ainda assim, lamentava a vegetação que seria retirada.

Quando voltei, encontrei uma estrada muito mais larga do que imaginava. A paisagem havia mudado tanto que tive dificuldade de reconhecer aquele caminho.

Toda a vegetação do traçado havia sido retirada. Além disso, pedras e terra da obra foram empurradas sobre outras plantas que cresciam ao redor.

Foi naquela trilha que encontrei uma delicada trepadeira de flores roxas, muito parecida com a Clitoria ternatea, uma planta que eu já conhecia, mas que não é nativa. A semelhança e a cor vibrante das flores despertaram minha curiosidade.

Durante dois meses, acompanhei a formação das vagens e esperei que secassem para colher as sementes. No final de julho, finalmente as guardei em um pequeno pote de vidro, com a esperança de cultivá-las na primavera.

Agora, diante daquela paisagem transformada, eu já não conseguia localizar o lugar onde a trepadeira havia crescido.

Senti tristeza e impotência por não ter conseguido evitar a retirada de tantas plantas. Também um pouco de indignação, pois acredito que poderiam ter tido mais cuidado. A terra e as pedras retiradas da estrada não precisavam ter sido despejadas sobre a vegetação ao redor.

Ainda tenho esperança de que algumas plantas consigam rebrotar, mesmo entre as pedras. Já vi isso acontecer no Cerrado.

Alguns dias depois de voltar a Alto Paraíso, fui com meu pai conhecer uma cachoeira da região. Logo me chamou a atenção o cuidado com a vegetação. A trilha era muito bonita e preservada, e o paisagismo tinha poucas espécies exóticas.

No restaurante, encontrei uma árvore em frente ao lavatório. Haviam feito uma abertura no telhado para que ela pudesse permanecer ali. Aquilo me encantou. Em vez de removê-la, escolheram adaptar a construção.

Árvore no espaço da cachoeira.

Na mesma hora, me lembrei da estrada de casa.

Observei também que o espaço reservado às raízes era muito apertado, como tantas vezes vemos nas cidades. Mais tarde, ao olhar as fotografias, percebi que o tronco havia sido cortado na parte superior.

Não era uma solução perfeita. Ainda assim, aquela escolha me fez pensar nas diferentes maneiras de construir e transformar um lugar, considerando as outras vidas que já existem ali.

Para mim, uma casa é uma teia de relações. Entre as pessoas, os animais, as plantas, as pedras, o solo, a água e o clima.

Sei que precisamos transformar os lugares para habitá-los. Mas gostaria que, antes de fazê-lo, pudéssemos perceber quem e o que já está ali. Talvez encontrássemos outras soluções, mais criativas e cuidadosas, que permitissem a continuidade de tantas outras existências.

Afinal, não estamos sozinhos.

Fazemos parte.

Entre raízes e silêncio…

Thauana.