Inverno . 2026
Que esta Carta encontre você no tempo em que sua vida está agora.
Era fim de outono quando me mudei para a Chapada dos Veadeiros.
Passei a vida em Goiânia. Nos últimos cinco anos, morei em uma chácara, buscando estar mais próxima da natureza. Foi então que meu companheiro, com toda a espontaneidade de um bom sagitariano, me fez um convite: mudar de vida e vir morar na Chapada.
Para ele, a decisão parecia simples. Para mim, boa taurina que sou, precisava ser gestada. Antes de mudar de paisagem, eu precisava mudar por dentro.
O outono foi meu tempo de desapego.
Caixas, despedidas, encerramentos e muitas perguntas.
“Vai, minha filha. Pode confiar.”
Enquanto isso, meu ego fazia exatamente o contrário. Sentia-se completamente despido das poucas seguranças que imaginava possuir.
E talvez essa seja uma das maiores ilusões que carregamos: acreditar que existe um lugar onde estaremos completamente seguros. No fundo, todos sabemos que controle e segurança são construções frágeis. Ainda assim, insistimos em segurá-las.
Cheguei à Chapada justamente na transição entre o outono e o inverno.
Enquanto muita gente perguntava qual seria meu próximo trabalho, eu sentia que havia outra tarefa mais urgente.
Enraizar.
Meus pais, naturalmente preocupados, perguntavam:
— Você já arranjou emprego?
E eu respondia:
— Ainda não. Estou enraizando nessas terras primeiro.
Hoje percebo que essa resposta era muito mais profunda do que eu mesma imaginava.
Não sair distribuindo currículos foi uma escolha consciente. Quis primeiro observar. Caminhar. Conhecer o ritmo desse lugar. Descobrir como a vida acontecia aqui e, principalmente, de que maneira eu poderia participar dela.
Esse processo só foi possível porque contei com o apoio do meu companheiro, que já estava aqui havia mais tempo, e também dos meus pais, amigos, amigas e do meu trabalho online com o yoga.
Nem sempre teremos esse privilégio. Mas acredito que, sempre que possível, vale a pena oferecer a nós mesmos um tempo de escuta antes de sair correndo em busca de respostas.
Foi observando o inverno do Cerrado que comecei a compreender o que também acontecia comigo.
Moro em uma área de Cerrado rupestre.

Cerrado no inverno - Foto: Thauana
Todos os dias caminho entre pedras, areia e vegetação nativa. Ainda me surpreendo com a quantidade de vida que nasce de um solo aparentemente tão árido.
À primeira vista, parece haver apenas capim seco, pequenos arbustos e árvores silenciosas. Quase não vemos flores. Não percebemos brotos. A paisagem parece imóvel.
Mas essa é apenas a superfície.
O Cerrado guarda um dos seus maiores mistérios debaixo da terra.
Não é à toa que ele é conhecido como uma floresta de cabeça para baixo.
Enquanto nossos olhos procuram folhas, galhos e flores, a maior parte da força da vegetação está escondida nas raízes.
Algumas árvores alcançam mais de quinze metros de profundidade.
Durante a estação seca, elas não competem por luz.
Aprofundam-se em busca de água.

Raízes - Foto: Thauana
Crescem lentamente, desviando-se das pedras, armazenando energia e fortalecendo-se para atravessar a seca e, muitas vezes, até o fogo.
O inverno é o tempo em que o Cerrado investe menos naquilo que aparece e mais naquilo que sustenta.
Quanto mais observo essa paisagem, mais percebo que ela também fala sobre nós.
Vivemos em uma sociedade que celebra flores, frutos e resultados.
Valorizamos aquilo que aparece.
Queremos crescer rapidamente, produzir mais, mostrar mais.
Mas a natureza segue outro ritmo.
Nenhuma árvore floresce durante o ano inteiro.
Antes da floração, existe um longo período de preparação.
Talvez seja isso que o inverno esteja tentando nos ensinar.
Há momentos em que a vida nos convida a diminuir o ritmo, aprofundar raízes e fortalecer aquilo que ninguém vê.
Nossa verdadeira força nem sempre é visível.
Ela está na qualidade da nossa presença.
Na capacidade de permanecer.
Na confiança que cultivamos quando ainda não enxergamos flores.
Foi isso que comecei a aprender ao chegar aqui.
Antes de procurar meu lugar no mundo, eu precisava criar raízes nele.
E acabei descobrindo algo que parecia um pouco óbvio, mas que, em sua essência, não é: eu pertenço a este território. Sou parte dele. Nasci no Cerrado e foi nele que a vida me trouxe até aqui.
Sentir essa compreensão no corpo me trouxe alívio e confiança.
Talvez você também esteja vivendo um inverno.
Não necessariamente do lado de fora, mas por dentro.
Talvez existam perguntas sem resposta, projetos ainda invisíveis ou caminhos que parecem suspensos.
Se for assim, talvez você não esteja parada.
Talvez esteja enraizando.
Para caminhar nesta semana
Durante esta semana, deixo uma pergunta para caminhar com você:
O que sustenta minha vida quando tudo parece árido?
Não tente responder apenas com a mente.
Se puder, responda a essa pergunta caminhando.
Convide o corpo para participar da conversa.
Caminhe.
Respire.
Escreva.
Observe uma árvore.
Sinta os pés encontrando o chão.
Não há respostas imediatas.
Há apenas sementes.
Carta do Inverno
O Cerrado não teme a seca porque aprendeu a confiar em suas raízes.
Enquanto o mundo procura flores, ele aprofunda o que ninguém vê.
Que este inverno também seja assim em você.
Menos pressa para florescer.
Mais coragem para criar raízes.
Até a próxima Carta do Cerrado.
Que, nesta semana, você encontre tempo para caminhar, observar e escutar.
A natureza continua ensinando. Basta diminuir o ritmo.
Habite esta estação.
— Thauana Pessoa
entre raízes e silêncio
